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segunda-feira, 1 de junho de 2020

Professores Home Office, Alunos off line e Aprendizagem distante.



Por Napoleão Maracajá


Com o advento da pandemia do coronavírus, por força da necessidade do isolamento social, adotou-se, no Brasil, o ensino remoto em substituição provisória, ou não ao ensino presencial.

No geral, as mudanças causaram impactos sejam positivos ou negativos, nesse caso, a nosso juízo, o saldo de aspectos negativos é muito superior a alguma virtude, se é que existe. Ainda é grande e generalizada a confusão, professores aflitos, sobrecargas, o trabalho antes dividido entre escolas e residências, no aspecto espacial, agora ocupa o mesmo cômodo, a modalidade o home office professores sobrecarregou e aumentou a jornada de trabalho dos trabalhadores em educação, aliás, essa é uma cruel e impiedosa característica dessa modalidade de trabalho (home office), o que o Ricardo Antunes denominou de uberização do trabalho, numa alusão aos trabalhadores de aplicativos como Uber, em muitos casos, em muitos países, a jornada de trabalho ultrapassa 18 horas por dia, um retrocesso, no caso da educação home office, professores, Brasil afora, estão no violento processor similar, é oportuno indagar, a revolução tecnológica veio para felicitar, para poupar trabalho ou escravizar? Facilitar ou dificultar a vida no trabalho? Para incluir ou excluir? Aproximar ou afastar?

Em outra sala (residência), pais e/ou responsáveis os que têm acesso à internet e os básicos equipamentos para acompanharem as aulas, aflitos pedem socorro, não conseguem acompanhar a dinâmica de nova modalidade de ensino, em ritmo simultâneo com as atividades domésticas, a falta tempo, sobram tarefas, sobram preocupações, em muitos casos, faltam alimentos. A conjugação de todas essas dificuldades e precariedades, limitações e insuficiências, somadas a falta de capital social que nas palavras de Pierre Bourdieu (1985), significa “o agregado dos recursos efetivos ou potenciais ligados à posse de uma rede durável de relações mais ou menos institucionalizadas de conhecimento ou reconhecimento mútuo”. São os ingredientes para um fracasso total no processo de ensino/aprendizagem, não porque ele seja bom ou ruim, mas por ser inacessível e, portanto, é inexequível para expressiva parte de alunado brasileiro.

A ausência de capital social, de capital cultural aliada às precárias condições de alimentação, de moradia, de infraestrutura, de acesso à água encanada, segundo o (IBGE, 2020), 18,4 milhões de brasileiros não recebem água encanada diariamente, isso considerando os dados oficiais, se contabilizarmos os dados não oficiais esses números podem no mínimo duplicar, o desemprego que oficialmente afeta 12,3 milhões de pessoas (IBGE, 2020), subemprego, o trabalho informal que oficialmente chega próximo dos 40 milhões de brasileiros, em números precisos são 38,4 milhões de pessoas. Como fazer educação remota nessas condições? Isso gera inclusão ou mais exclusão?

Não é possível ensino remoto sem uma ampla cobertura geográfica de uma rede de internet de qualidade. Nesses aspectos, uma parcela muito expressiva da população brasileira continuará excluída, segundo o (IBGE, 2018), em 98,7% dos domicílios em que havia acesso à Internet, o telefone móvel celular era utilizado para este fim. Em seguida, estava o microcomputador (52,3%). Não precisa ser PHD para saber que nessas condições, com acesso à internet via celular, não é possível acompanhar as aulas, muito menos o ritmo de estudantes que têm boa internet e bons computadores.

O governo brasileiro, se levasse a sério a educação do povo pobre, determinaria às operadoras de telefonia a distribuição de internet gratuita para as residências dos estudantes da rede pública em todos os estados da federação, como fez o presidente dos Estados Unidos Donald Trump, que obrigou a General Motors (GM) a fabricar respiradores para serem usados no combate ao novo coronavírus.

​Portanto, para o debate ser sério e honesto, não se pode falar de ensino remoto, no Brasil, antes que os estudantes tenham acesso a uma boa internet e bons computadores, as famílias tenham condições de acompanhar, interagir e ajudar e principalmente suas necessidades essenciais atendidas, em crises é imperioso separar o essencial do importante, o essencial não pode esperar, quem defende o contrário, ou está enganado, ou está enganando ou as duas coisas.

Pelos números oficias, conclui-se sem nenhum esforço que o ano letivo brasileiro, como ocorreu em outros países, dadas as anomalias decorrentes da epidemia, está comprometido. O ensino remoto acentuará ainda mais a colossal desigualdade educacional com implicações abissais nos aspectos socais, econômicos e culturais dos brasileiros mais pobres.

Quem está off-line não pode ter ensino remoto, não pode ter educação a distância, não pode ter inclusão, não se promove inclusão preservando, acentuando, ampliando mecanismos de exclusão. A insistência nesse modelo é prenúncio de um fracasso anunciado, visível e previsível; no entanto, é possível desconfiar de que ao não levar em consideração todos esses elementos, todas essas realidades, se queira manter o status quo de alunos da rede pública. Como já advertia o eminente professor, Darcy Ribeiro “a crise da Educação no Brasil não é uma crise; é um projeto”.


Napoleão Maracajá é Graduado em geografia (UEPB), especialista no ensino de geografia (UEPB); mestre em geografia (UFPB), doutor em recursos naturais (UFCG).


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