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sábado, 4 de julho de 2020

Adeus, Nenem!



Antigamente, toda criança tinha medo de assombração. Toda criança, tinha medo de lobisomem; tinha medo do papa-figo; do padre-sem-cabeça e do bicho caipora.

Mas, pra desgosto e inveja das crianças do seu tempo, não era esse, o sentimento de Sebastião Paca da Silva, o Nenem, para os familiares, e Miolo, para o restante dos moradores da pequena Vila de Santa Cruz.

Segundo o meu tio Gerôncio, de quem Nenem era primo legítimo, e o seu amigo, Aluízio Moura, o conhecido "Lú de Viví, no início da década de 40, do século passado, diáriamente, ao anoitecer, enquanto o rádio (único na Vila), do Coronel Luiz Alves, transmitia as últimas notícias da Segunda Guerra Mundial, que se desenrolava na Europa e prendia a atenção dos adultos, que se aglomeravam nas imediações da casa do Coronel, a meninada, alheia aos horrores que aconteciam no outro lado do Atlântico, só tinha um objetivo: bulir (hoje é fazer bullying), com Nenem,  chamando-o de Miolo, o que deixava o nosso personagem, profundamente colérico.

Portando, desde então, um porrete em uma das mãos e com um inseparável palito, feito de lasca de pau que dançava na sua boca de poucos dentes, Nenem, enraivecido, corria, Rua Grande acima, Rua Grande abaixo, atrás e sem sucesso da molecada que o deixava verdadeiramente louco. E, quando finalmente, conseguia encurralar algum, existia na esquina do Beco do Santander, um Cemitério e era justamente para onde a infeliz criança corria, pois sabia ser a única coisa de que Nenem tinha verdadeiro pavor.

E ontem, depois de 89 anos de vida, vivida na inocência dos abençoados por Deus, a Lei da Vida, fez com que Nenem, o Miolo, que povoou e amedrontou a imaginação de gerações inteiras de santa-cruzemses, entrasse no único lugar que ele temia: um Cemitério onde vai morar para, sempre.

Por: Zé Minhoca


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