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sexta-feira, 7 de maio de 2021

Memórias - Por Clécio Dias



No salão do Clube Treze de Maio, no Centro de Santa Cruz, ecoava o “atual” sucesso de Dominguinhos e Anastácia, sob os dedos habilidosos de Leninho Sanfoneiro, os forrozeiros ouviam, dançavam e cantarolavam: “Que falta eu sinto de um bem, que falta me faz um xodó, mas como eu não tenho ninguém, eu levo a vida assim tão só (...)”

 

O Clube Treze Maio está lotado. Ele foi inaugurado há poucos dias. É um dos seus primeiros eventos: estamos em 1976. O remexido da sanfona de Leninho agita os vãos do clube. O espaço que iria ficar aberto por cerca de seis anos (entre 1976 e 1982), é o mesmo espaço que inspirou o maior sanfoneiro de Santa Cruz. É o espaço de tempo onde “Zé Edilson”, lá de Toritama, dava um abraço apertado em Santa Cruz e encostava no peito sua sanfona.

 

No meio do Clube, “Zé Edilson” cutucava Leninho, como que implorando: “Me ensine a tocar, meu tio”, e Leninho respondia: “Deixe o forró terminar, menino”! O desconhecido “Zé Edilson”, sobrinho de Leninho Sanfoneiro, enquanto todos dançavam forró, observava atentamente as notas musicais e os movimentos nos dedos do grande sanfoneiro Leninho, mas Inacinha, irmã de Leninho e tia de “Zé Edilson”, foi quem, de fato, o ensinou a tocar.

 

“Zé Edilson” que perambulava no meio do Clube Treze de Maio, pedindo para aprender a tocar sanfona, era, na verdade, Dedé Sanfoneiro. Agora ele não quer aprender, pois já sabe muito. Não implora que alguém o ensine, pois ele é que sabe ensinar. Não olha quem está no palco, porque o palco agora é todo dele: estamos em 1980.

 

A sanfona encostada no peito, tinha um espaço sagrado em seu coração. Talvez nada mais ocupasse o coração de Dedé do Acordeon. Até que um dia, na banda do seu tio, uma voz doce e afinada, apareceu cantando: “Eu só quero um amor, que acabe o meu sofrer (...)”

 

A linda moça da voz tão linda era Inácia Josineide. Dedé se apaixonou por ela e ela se tornou simplesmente a “Neidinha de Dedé”! Agora no peito onde outrora repousava a sanfona também se recostou Neidinha!

 

Apaixonado, Dedé chegou até a tocar uma canção que sua tia Inacinha havia lhe ensinado anos antes. O brega de Zé Ribeiro “transformado” em forró por tia Inacinha: “Tens a beleza da rosa, uma das flores mais formosas” (...)

 

A voz e a sanfona. O sanfoneiro e a cantora. Neidinha e Dedé! Ficaram tão unidos que até os nomes ficaram inseparáveis: “Neidinha de Dedé” ou “Dedé de Neidinha”. O instrumento musical tocado por Dedé se harmonizava perfeitamente com a bela voz de Neidinha! O casal forrozeiro fez o São João da Capital da Sulanca sublime.

 

O São João de Santa Cruz sem eles não era São João!

 

Alguns anos mais tarde (em meados dos anos 1980) entre tantas tentativas para ter filhos, a “biologia” não os permitiu, mas Deus lhes deu de presente uma filha: Meirelane Rafaela – a única filha do casal.

 

As décadas de 1980 e 1990 foram marcadas pela atividade musical intensa: discos, bandas, shows, participações e até o cantor Flávio José gravou um sucesso composto por Dedé do Acordeon.

 

O então prefeito de Caruaru, Tony Gel, se encanta por Dedé, Neidinha e toda a sua banda! Indica e contrata shows, eventos, por cidades do Agreste, mas principalmente em Caruaru, no Alto do Moura: estamos em 2001.

 

Seu Monza estava no conserto e teve que pedir o carro do saudoso amigo Geraldo Costa emprestado, era um Del Rei. Hildo Teixeira, Toinho Catanha, Caveirinha e outros já o aguardavam no Alto do Moura. Dedé chegou a convidar, por oito vezes, seu zabumbeiro preferido: Bento da Zabumba! Mas Bento não pôde ir!

 

Seguem a destino de Caruaru Dedé, Neidinha, Luquinha, Geraldo do Axé e Beto Batera. Dedé cochichou com Neidinha sobre os planos de Tony Gel e então um sorriso escapou no rosto dos dois. Um sorriso que nunca ia se desfazer. Mas à frente, antes de chegar em Pão de Açúcar, surge de repente um carro fazendo ziguezague, Dedé puxou para o acostamento, mesmo assim, o veículo desorientando atingiu de vez o carro do sanfoneiro.

 

Tudo aconteceu tão bruscamente e com tanta violência, que nem deu tempo o sorriso se desfazer completamente. O carro de Dedé foi atingido em cheio, Dedé morreu, Neidinha ficou entre a vida e a morte: estamos, infelizmente, em 29 de junho de 2001.

 

Ficamos sem Dedé e, infelizmente, ficamos sem Neidinha. Naquele triste acidente perdemos a música de Dedé e perdemos também a voz de Neidinha. Depois do acontecimento, sem Dedé, Neidinha nunca mais cantou. Ela não conseguia, por mais que se esforçasse. Sua vida praticamente acabou ali também, entre as ferragens, no meio daquela pista.

 

Em 2002, no ano seguinte, aconteceu o primeiro São João sem Dedé! Ele foi até o homenageado, mas foi um São João sem gosto! Nos anos seguintes, todas as festas de São João foram sem ele e sem Neidinha!

 

Neidinha, com o passar dos anos, ficou mais fragilizada. Seu quadro piorou. Depois daquele acidente sua vida se tornou incompleta e triste e ela foi se debilitando. Chorava quando se lembrava de Dedé, sua voz já não cantava mais, queria ir viver perto do seu querido sanfoneiro, até que um dia, descansou também: estamos em 30 de março de 2015.

 

Daqui a pouco mais de um mês, se tiver São João, vai ser sem Dedé de novo e vai ser sem Neidinha também. Acho que nunca nos acostumamos sem eles! Caso haja festa junina, no palco, vai ter voz e sanfona, mas para os fãs, a melodia da sanfona aparecerá em preto e branco, a voz também será em preto e branco... sem o colorido da voz de Neidinha, sem o colorido da sanfona de Dedé... sem bandeiras coloridas, sem luzes, sem vida... é como se não tivesse mais São João!

 

Santa Cruz do Capibaribe, 06 de maio de 2021

Por: Clécio Dias!

 

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